14 dezembro 2005

Contra Putin

Este texto do meu amigo Paulo sobre Vladimir Putin merece a seguinte resposta, ponto por ponto:
1) «(...) igualmente, tem posto reservas a alguns aspectos da actuação Israelita que mais desagradam ao nosso Amigo» - também a EU e não é por isso que passo a defendê-la. E o apoio que concede ao Irão, não te desagrada?
2) «Quanto ao projecto de acordo de Lebed, acredito, pela natureza das coisas, que o único acordo aceitável com terroristas é a bala» - como é que te podes esquecer que a Chechénia foi invadida pelas tropas russas em Dezembro de 1994 sem qualquer motivo aceitável? E que até aí o islamismo não tinha qualquer papel no movimento independentista? O acordo de Lebed só fez justiça com a Chechénia e representou a contrição mínima aceitável por parte do invasor. A sua morte continua por elucidar mas deu jeito a muita gente da “entourage” de Yeltsin
3) «E não tentes desculpar as gentes que querem, contra a maioria dos habitantes daquele território, uma independência, para cuja obtenção não hesitam em levar a cabo inúteis massacres de inocentes como os da escola local e do teatro moscovita.» Aqui a contradição ainda é maior: primeiro falas nos conflitos de vários séculos, depois dizes que a maioria dos chechenos não quer a independência. E misturas tudo quando falas nos atentados. QUEM deu força ao islamismo radical na Chechénia foi Putin, que dele se serve despudoradamente para legitimar a sua vergonhosa guerra, que já eliminou um terço da população. E também podias falar das negociatas entre generais russos e os islamistas para partilha de recursos petrolíferos; ou do facto de os dirigentes chechenos eliminados serem todos moderados, ao passo que os senhores da guerra islamistas podem passear-se sem problemas de sofrerem atentados.
4) «Putin tem levado a cabo uma diplomacia interessante, lambendo as feridas na relação com os ex-satelites e ex-membros da URSS.» Desculpa mas isto é um disparate pegado: qual o papel de Putin em relação à Ucrânia e à Geórgia: apoiar as manobras eleitorais fraudulentas que beneficiavam os políticos locais pró-moscovitas; também apoia o regime "venal" de Lukashenko, um puro produto da ex-URSS, que submete a população à miséria e à mordaça total.
5) «Mas quem são esses? Milionários recém-feitos com ligações a mafias que não pensam duas vezes antes de matar. Não verto uma lágrima por eles.» Mais uma vez a amnésia a funcionar: os milionários perseguidos apoiavam TODOS os políticos da oposição, por isso foram perseguidos. O facto de também serem judeus acomodou a actuação do Governo com o conhecido sentimento anti-semita da população russa.
6) Por outro lado, nem uma palavra para o silenciamento sistemático de todo e qualquer órgão de comunicação social que tenha uma visão minimamente crítica do poder.
7) Em resumo, agrada-te um indivíduo que tem governado ao estilo que conhece: soviético – expansionismo militarista, silenciamento das oposições, centralismo (retirou grande parte do poder que os governadores das regiões detinham na câmara alta). E não esquecer que a Rússia continua com presença militar em ex-repúblicas soviéticas como o Tadjiquistão ou a Moldávia.

(Já abordámos esta questão em várias ocasiões: ler aqui e aqui.)

7 Comments:

Anonymous Mendo Ramires said...

Estamos no campo da boa e antiga polémica - enxuta e elevada; mas, a doer...! Assim é que é.

14 dezembro, 2005 13:49  
Blogger pedro guedes said...

Caro FG:
Também eu, há menos de um mês, escrevinhei umas coisas sobre o assunto. Na verdade, concordo com o texto do Paulo e entendo que a Rússia é hoje, com a sensata presidência de Putin, o único factor de introdução de algum equilíbrio (decente) na cena internacional. Do ponto de vista interno haverá abusos, eventualmente, embora não tenha dados que me permitam dizer isso ou o contrário. Mas como os há em todos os regimes, é provável que Moscovo não constitua excepção.
Sobre o alegado apoio ao Irão: o que a Rússia faz é 'realpolitik', todos os Estados o fazem! neste caso, a Rússia tenta apenas manter - e se possível aumentar - os seus centros de influência geoestratégica. Em todo o caso, não creio que haja assim tanto apoio "de facto", mas se houvesse, mais não seria do que o reverso da medalha de apoio activo dos States a Israel.
Mas daqui te pergunto: não é saudável que exista equilíbrio na esfera mundial? E a não ser a Rússia a impor esse equilíbrio, vês alguém mais (decente) capaz de levar a cabo tal missão?

14 dezembro, 2005 15:09  
Blogger alex said...

"... o que a Rússia faz é 'realpolitik', todos os Estados o fazem!"

Está a ver?!
hehehe

O Pedro que não se esqueça do que escreveu.
Que eu, jamais o esquecerei.
:)

14 dezembro, 2005 16:28  
Blogger pedro guedes said...

Nelson: qual é o espanto? É o princípio primeiro da política internacional...
O problema é que o Buiça se incomoda com a 'realpolitik' dos que não aprecia e, à primeira oportunidade, Haia com eles...

14 dezembro, 2005 17:09  
Anonymous Anónimo said...

Putin ha "enchufado" a su amigo Schroeder en una empresa de Gas rusa

14 dezembro, 2005 21:15  
Blogger miazuria said...

Caro FGSantos, uma correcção e uma observação:
1. O conflito na Chechénia tem raízes remotas (não esqueçamos o facto dos Cossacos e Toltoi terem combatido naquela região conturbada), o islamismo, nao tendo sido sempre fundamentalista, foi permanentemente uma referência identitária daqueles povos contra a ortodoxia Cristã.
A gestão da política passa pela definição, na esteira de Carl Schmitt, de quem é o nosso inimigo. Não se vai dar a independência a inimigos... e depois, o que é que aconteceria?
2.E agora a obervação,suponho que o FGSantos, em boa coerência, defenderá a independência de Euskal-Herria. Ou não?

Saudações

15 dezembro, 2005 15:27  
Blogger miazuria said...

Tolstoi

15 dezembro, 2005 15:28  

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